• Diretor de Redação Ulysses Serra Netto

Polícia

Retrospectiva 2024: 'Pelo simples fato de ser mulher', diz delegada sobre feminicídios em MS

Estado teve registrados 32 casos de feminicídios neste ano, número maior que o de 2023

Sábado, 28 Dezembro de 2024 - 10:00 | Marina Romualdo


Retrospectiva 2024: 'Pelo simples fato de ser mulher', diz delegada sobre feminicídios em MS
Mulheres que tiveram as vidas interrompidas em 2024; violência começa com pequenos gestos, alertam especialistas (Fotos: Divulgação)

Luciene Braga Morale, Maria Rodrigues da Silva, Marta Leila Silva Neto, Mayara Almodin Aran, Joelma da Silva André, Eliza Ribeiro Rodrigues, Giseli de Souza, Gisely Duarte, Gilvanda de Paula e Silva, Renata Andrade, Daiene Xavier, Aleandra Torres de Souza e Simone do Nascimento, estão na lista das 32 vítimas de feminicídios em Mato Grosso do Sul neste ano de 2024. O número cresceu em comparação ao ano passado, que teve 29 casos de feminicídios consumados.

No dia 18 de dezembro foi deflagrada a Operação "Aurora" por um amanhecer sem feminicídio, a última deste ano realizada pela equipe da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) juntamente com outras especializadas e do interior do Estado. Segundo a delegada titular, Elaine Benicasa, a operação foi destinada pelo pequeno aumento que o Estado teve pelos feminicídios consumados.

"No mesmo período do ano passado, foram registrados 29 feminicídios consumados em MS e neste ano foram 32 casos. No entanto, é importante reforçar que houve uma queda no feminicídio tentado. E, o que diferencia o crime tentado para o consumado são apenas as circunstâncias – de que se a vítima é socorrida a tempo, se o autor de fato consegue consumar o crime, pois, o suspeito possui a vontade de tirar a vida daquela mulher pelo simples fato dela ser mulher".

"Além disso, a prevenção leva tempo. O autor de feminicídio é diferenciado, então é preciso que cada vez mais tenhamos um olhar mais apurado para esse tipo de homem. Sendo assim, é preciso garantir a prevenção e a repreensão desses casos como programas de reeducação, além de políticas públicas voltadas para a reabilitação e prevenção, com apoio conjunto da Polícia Civil e do Governo do Estado", reforçou a delegada. Em comparação ao ano passado, foram registradas 111 tentativas de feminicídio e neste ano foram 85.

Entre as vítimas já citadas, a primeira vida ceifada deste ano foi de Luciene Braga Morale no dia 3 de janeiro. Ela foi morta enforcada até a morte pelo próprio marido, Airton Barbosa Louriano, no município de Sidrolândia.

Retrospectiva 2024: Mortas por serem mulheres
Luciene Braga Morale foi a primeira vítima de feminicídio deste ano (Foto: Divulgação)

Já a Maria Rodrigues da Silva, de 66 anos, foi a segunda vítima de feminicídio morta em MS. O suspeito, ex-companheiro dela, não aceitava o fim do relacionamento e a golpeou várias vezes com um facão, em São Gabriel do Oeste.

Retrospectiva 2024: Mortas por serem mulheres
(Foto: Divulgação)

A vítima Mayara Almodin Aran Florenciano, de 29 anos, também foi assassinada pela ex-namorado, o estudante de medicina, Diego de Souza Mendonça, 26 anos. A vítima fatal estava em uma festa de carnaval com alguns amigos quando pegou uma carona para casa com um casal de colegas. No entanto, quando estava chegando na sua residência, antes de descer do veículo, outro carro parou logo atrás do automóvel de Mayara.

Neste momento, o suspeito desceu e comentou com o casal que a acompanhava que era o ex-namorado da vítima. Em seguida, ele foi em direção ao carro da ex-namorada, abriu a porta do passageiro e efetuou vários disparos contra ela e fugiu do local tomando rumo ignorado. Ele se apresentou à delegacia alguns dias após o feminicídio.

Retrospectiva 2024: Mortas por serem mulheres
Mayara Almodin Aran Florenciano foi morta pelo ex-namorado (Foto: Divulgação)

No dia 22 de março, Dayane Xavier da Silva, de 29 anos, foi morta pelo companheiro, Thiago Echeverria Ribeiro, de 38 anos, na frente dos filhos no bairro Nova Campo Grande, em Campo Grande. Eles iniciaram uma discussão após uma bebedeira.

Retrospectiva 2024: Mortas por serem mulheres
 Dayane Xavier da Silva foi morta após uma discussão com o marido (Foto: Divulgação)

A Andressa Fernandes Teixeira, de 29 anos, teve a vida ceifada pelo marido, Willames Monteiro dos Santos, de 33 anos. Ela atropelou a vítima e a matou durante uma bebeira e na frente da filha de 11 anos, em Campo Grande. Testemunhas que estavam pelo local pediram para o mesmo parar, pois, ele ia acabar matando Andressa. Mas, ele respondeu dizendo "dane-se".

Retrospectiva 2024: Mortas por serem mulheres
Andressa Fernandes Teixeira também teve a vida ceifada pelo companheiro (Foto: Divulgação)

No município de Ivinhema, Mariana Agostinho Defensor, de 32 anos, foi assassinada com 58 facadas após uma discussão com o companheiro, Jailton Pereira dos Santos, de 33 anos. Após o crime, suspeito foi encontrado desacordado no carro da família na região da Gleba Vitória após tentar tirar a própria vida.

Retrospectiva 2024: Mortas por serem mulheres
Mariana Agostinho Defensor foi morta a facadas pelo marido (Foto: Divulgação)

Violência Doméstica –  A violência contra as mulheres começa nos pequenos gestos que muita das vezes não são percebidos como violência pelas vítimas. Porém, são sinais de que o respeito não existe e tende a pior. Segundo a advogada e subsecretária de Políticas para Mulheres da Prefeitura de Campo Grande (SEMU), Carla Stephanini, a violência não começa grave, mas sim, com pequenos sinais que chegam na violência física, sexual, psicológica e patrimonial.

"Na relação doméstica, familiar, é um algo que possui afeto e essas situações não acontecem muito rapidamente. É algo que vai se instalando aos poucos com pequenos sinais que vai evoluindo. A nossa sociedade patriarcal que gera o machismo, sendo a figura do homem, uma figura central do controle social como – econômico, político e, sendo assim, ele acaba achando que também tem um controle sobre as mulheres. Desta forma, o nosso trabalho é justamente combater e fazer uma transformação social e, por isso, o trabalho é desafiador", explicou Carla ao Diário Digital

A psicóloga, Márcia Paulino, afirmou que o ciúme não é uma demonstração de amor, ele é uma demonstração de controle. "Muito das vezes no início da relação, a pessoa acha que o ciúme é algo bonitinho – ‘ah, ele tem ciúmes da roupa que eu uso, das minhas conversas’, mas às vezes o controle da roupa que usa, e das amizades, já são sinais de que essa pessoa tem um controle sobre você que na maioria das vezes pode tornar-se violenta".

Denuncie – Em situações de urgência e emergência, quando uma agressão estiver acontecendo, ligue 190 e chame a Policia Militar. Já caso você não seja de Mato Grosso do Sul, ligue para o 180 – é um serviço telefônico gratuito de orientação e encaminhamento de denúncias sobre violências contra as mulheres. Além disso, também é possível ser atendido pelo WhatsApp, basta enviar mensagem para o número (61) 9610-0180.

SIGA-NOS NO Google News