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CG 124 anos: Guavira é estrela de estudos científicos e pomar urbano

Pesquisa feita com seriedade quer preservar a fruta que campo-grandense adora catar no mato

Sexta-feira, 25 Agosto de 2023 - 07:00 | Valdelice Bonifácio


CG 124 anos: Guavira é estrela de estudos científicos e pomar urbano
A empresária Ariadne Gonçalves e a engenheira agrônoma Ana Cristina Ajalla Volpe (Foto; Luiz Alberto)

O doce sabor da guavira estará à disposição no primeiro pomar urbano do País, criado no Parque das Nações Indígenas, em Campo Grande (MS), em cerca de três a cinco anos. As mudas foram plantadas em Dezembro de 2022 e estão se desenvolvendo em condições naturais.

Símbolo oficial de Mato Grosso do Sul desde 2017 por meio de lei estadual, a querida fruta é também alvo de pesquisas científicas muito sérias que visam conhecer melhor a planta e preservar a guavira.  A Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural (Agraer) tem uma unidade de pesquisa de guavira que é referência estadual.

Presente em áreas de mata da Capital, a fruta faz parte das memórias afetivas de muitos campo-grandenses. Por isso, é lembrada na série de reportagens especiais do aniversário de 124 anos de Campo Grande, que serão completados neste sábado, 26 de Agosto.  Veja no fim da matéria.

CG 124 anos: Guavira é estrela de estudos científicos e pomar urbano
Pomar de Guavira no Parque das Nações Indígenas é uma parceria com BR Gardens, da empresária Ariadne Gonçalves (Foto: Luiz Alberto)

A ideia de implantar um pomar urbano de guavira em Campo Grande foi da empresária Ariadne Gonçalves, que mantém um viveiro de mudas de espécies nativas e regionais na Capital. "Eu tinha esse sonho de fazer com que todas as pessoas tivessem acesso a essa fruta tão típica do nosso Estado, assim como tive na minha infância", relembra.

Ariadne foi a luta para transformar o sonho em realidade. Bateu às portas da Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural (Agraer) e conseguiu firmar a parceria entre a instituição e sua empresa, a BR Gardens. Na Agraer, encontrou a melhor parceira que alguém pode ter nessa militância da guavira: a engenheira agrônoma Ana Cristina Ajalla Volpe que faz pesquisas científicas sobre a fruta dentro do Centro de Pesquisa e Capacitação (Cepaer) da Agraer, localizado na saída para Rochedo.

Ana Cristina é praticamente uma ativista da conservação e ampliação da presença da fruta no Estado. São 16 anos trabalhando na causa.  A guavira, inclusive, foi o tema da tese de mestrado dela.  A agronôma quer preservar o material genético da planta usando a agricultura familiar como uma dos caminhos para tal objetivo.

CG 124 anos: Guavira é estrela de estudos científicos e pomar urbano
Ana Cristina e Ariadne com as mudas do viveiro do Cepaer,  na Agraer (Foto: Luiz Alberto)

O aumento das pastagens e da agricultura reduziu o espaço da fruta nas terras do Estado, daí a necessidade e encontrar uma forma para a sobrevivência dela. Assim, o dia a dia de Ana Cristina na Agraer é investigar o desenvolvimento da planta e produzir mudas para espalhar pelas cidades sul-mato-grossenses.

"Quando começamos não havia estudos consistentes sobre o assunto. Porém, já sabíamos que a guavira já não tinha mais o mesmo campo que antes. Então, passamos a trabalhar para manter a espécie e a tradição da colheita dessa fruta tão querida", explica.

Para iniciar os trabalhos, a agrônoma recorreu às aldeias indígenas do Estado em busca das primeiras sementes. "Trouxe algumas da aldeia Lagoinha em Aquidauana", mencionou. Primeiro foi preciso aprender a lidar com as próprias sementes. "Descobrimos que não se pode fazer secagem", afirma. "E quando está na fase de mudas, não se deve exceder na irrigação", completa.

CG 124 anos: Guavira é estrela de estudos científicos e pomar urbano
Mudas recebem irrigação cautelosa no Cepaer (Foto: Luiz Alberto)

Melhoramento genético - Aliás, as mudas devem permanecer de 11 a 12 meses no viveiro para só depois ganhar o campo. A agronôma segue fazendo o melhoramento genético com o avanço do plantio, que começou da observação. "A gente percebia os frutos mais bonitos, macios, de melhor tamanho e fomos selecionando essas plantas para fazer parte da experiência aqui na Agraer", relembra.

Como se vê, Ana Cristina acumulou conhecimento sobre o assunto na prática. Hoje é responsável por cerca de 1 hectare de área plantada de guavira na Agraer, além de viveiros de mudas, e áreas para pesquisas diversas envolvendo a fruta, tais como a integração entre pecuária e os guavirais (que está sendo preparada para começar ainda neste ano).

“Desta vez, nós queremos dizer ao produtor, entre outras coisas, se ele pode e como pode plantar a guavira junto com a pecuária”, explica. Duas áreas experimentais serão utilizadas para comparar o desenvolvimento dos pés de guavira com e sem contato com bovinos do rebanho leiteiro do próprio Cepaer.

CG 124 anos: Guavira é estrela de estudos científicos e pomar urbano
Área para produção integrada de guavira com a pecuária já está sendo preparada (Foto: Luiz Alberto)

Ao término da colheita, a forrageira e as plantas de guavira nos dois espaços serão comparados quanto à altura, porcentagem de plantas mortas, produtividade média, entre outras coisas. Na segunda frente de estudos, plantas com pelo menos uma década e dois metros de altura serão podados e os brotos serão coletados para a produção de estacas.

Outra descoberta da pesquisa diz respeito ao espaçamento entre as plantas de guavira. "Hoje, usamos dois metros entre as linhas e um metro entre cada pé de planta", detalha. O solo só recebe adubação natural. 

Além disso, a pesquisa iniciou com plantio sem irrigação, embora atualmente, a Agraer já esteja preparando um teste com uso de água de poço artesiano. "Ainda não temos ideia de como será o resultado com uso de irrigação. Mas, o certo é que aqui sempre buscamos formas de não tornar o cultivo caro para o agricultor familiar", pondera.

CG 124 anos: Guavira é estrela de estudos científicos e pomar urbano
No Cepaer, área de cerca de 1 hectare é destinado ao plantio com finalidades científica e produtivas da guavira (Foto: Luiz Alberto) 

No Cepaer, ela produz cerca de 1,5 mil muda por ano e já entregou para cidades como Nova Andradina, Dourados, Ponta Porã e Bonito, além da própria Campo Grande. Neste caso, as mudas foram repassadas aos pequenos produtores após cursos da Agraer.

Por falar em capacitação, a Agraer disponibilizou vídeos em seu canal no YouTube nos quais a agrônoma ensina a extrair as sementes para produção de mudas de guavira, preparar a semeadura e a transplantar as mudas no tempo e espaço adequado para o desenvolvimento das plantas. Os vídeos são curtos e objetivos. Assista abaixo:


Quem deseja cultivar a guavira precisa saber ainda que o melhor período para o plantio é o período chuvoso.  Se estivermos falando de Campo Grande, os meses mais adequados são Dezembro, Janeiro e Fevereiro. 

Não por acaso, o plantio do primeiro pomar urbano da fruta, no Parque das Nações Indígenas, foi feito em Dezembro de 2022. A foto abaixo mostra a condição do pomar atualmente.

CG 124 anos: Guavira é estrela de estudos científicos e pomar urbano
No Parque das Nações. mudas são irrigadas pela água das chuvas apenas (Foto: Luiz Alberto)

 "Lá (no parque) é Deus que cuida. O pomar só recebe água da chuva e nada mais", observa Ariadne Gonçalves. Exatamente essa é a condição natural. A planta nasce em áreas de mata, ensolaradas, cresce e dá frutos sem a necessidade de interferência humana.

O primeiro pomar urbano de guavira recebeu 50 mudas da planta desenvolvidas na Agraer. Elas estão em um espaço de 4,9 mil metros quadrados, sendo ainda bem pequenas não tendo chegado aos 20 cm de altura. O crescimento é lento. Veja abaixo imagens da data do plantio que mobilizou dezenas de pessoas no dia 20 de dezembro de 2022:

O plantio no parque surgiu como forma de neutralizar o carbono liberado na realização do Festival Sarau, realizado durante todo o semestre pela Secretaria de Estado de Cidadania e Cultura do Estado. “É um festival que reúne pessoas de todas as idades, daí a ideia de agregar pessoas que fizeram parte do evento para também pensar na questão da compensação ambiental é algo muito importante”, comenta Ariadne.

DNA Indígena e vitaminas- A guavira é uma planta nativa do cerrado e carrega em seu DNA a origem histórico-cultural indígena. Também conhecida como guabiroba é um fruto com nome indígena de origem Guarani, que significa 'árvore de casca amarga'. Definição que ao que tudo indica vem pelo costume dos índios de a usarem para fins medicinais.

A planta pode chegar em média a 1,5 metro de altura e produz um fruto com sabor adocicado e agradável com grande aproveitamento na gastronomia. É muito comum na produção de doces, picolés, cachaça, além de servir de alimento para os animais da fauna silvestre. A época de maturação da fruta ocorre nos meses de novembro e dezembro.

CG 124 anos: Guavira é estrela de estudos científicos e pomar urbano
(Foto; Luiz Alberto)

Já sabe-se também que um único fruto pode conter até 20 vezes mais vitamina C do que a laranja. A guavira também oferece o magnésio, ótimo para digestão, o fósforo e o cálcio que deixam os dentes e ossos fortes e o potássio, indicado para os atletas e amantes de atividades físicas, por fortalecer os músculos.

Porém, apesar do conhecimento já acumulado há muito a se responder. Quanto tempo vive uma planta de guavira? Existe um tempo de vida produtiva para esta planta? Os pesquisadores ainda não sabem. "Não se estudava antes, portanto há muito a se descobrir", afirma Ana Cristina.

Porém, há cada vez mais instituições em busca de respostas sobre a guavira. Além da Agraer, também participam dos estudos  UCDB, Univerp, UEMS, Ficruz, entre outras entidades.

CG 124 anos: Guavira é estrela de estudos científicos e pomar urbano
(Foto; Luiz Alberto)

Serviço - A BR Gardens que cultiva mudas de plantas nativas e regionais atende pelo WhatsApp: (67) 3027-3661. O trabalho da empresa também pode ser apreciado pela rede social @brgardens.com.br.

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