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Dourados

Estudante relata em rede social momentos de terror durante estupro nos arredores de faculdade da UFGD

Vítima explicou que seguia a noite para a universidade quando foi abordada por homem e estuprada

Sábado, 20 Agosto de 2022 - 14:03 | Victória de Oliveira


Estudante relata em rede social momentos de terror durante estupro nos arredores de faculdade da UFGD
Crime ocorreu enquanto estudante seguia para aula noturna - (Foto: Arquivo/DD)

Uma estudante da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) relatou nesta sexta-feira, 19 de agosto, ter sido vítima de violência sexual enquanto seguia pela rua Quintino Bocaiúva, nas proximidades da Faculdade de Direito (Fadir) da UFGD. O depoimento foi publicado em redes sociais e o autor segue sem identificação. “Quero que todos saibam o que aconteceu comigo. Não quero que ninguém passe pela mesma situação, nem nenhuma parecida”, declara a vítima.

Conforme o relato da estudante, o estupro ocorreu entre às 19h30 e 20h da última quarta-feira, 17 de agosto, enquanto a jovem se dirigia para a faculdade. Ela explica que foi abordada por trás por homem “baixo, relativamente gordo, barrigudo e que usava um capacete”. O autor a todo momento falava para a vítima não reagir, pois estava armado, conta a estudante.

A jovem foi levada para um terreno baldio a cerca de três quadras da UFGD e o abuso sexual foi cometido. “Ele mandou que eu deitasse no chão. Ele mandou que eu tirasse a calça e a calcinha. Ele me penetrou algumas vezes. Ele levantou. Ele foi embora. Ele não pediu meu celular. Ele não pediu dinheiro. Ele não pediu meu cartão. Ele não pediu nada”, conta a vítima.

Após o abuso, a vítima levantou e correu até a universidade para pedir ajuda. Chegou à sala de aula, chamou uma amiga. “Eu acabei de ser estuprada”, contou à colega e pediu que acionasse a Polícia Militar, que chegou em cerca de 15 minutos. 

“O processo é longo”

A jovem conta, ainda, que passa por um longo tratamento para prevenir Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) após o ocorrido. No mesmo dia do crime, foi até Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Dourados, onde foi medicada pílulas e duas injeções. De lá, necessitou de passar por atendimento no Hospital Universitário (HU) da UFDG, onde realizou exames de sangue e corpo delito. 

No dia seguinte, 18 de agosto, retornou ao Hospital para terminar os procedimentos. “Tomei três injeções”, lembra. A jovem explica, ainda, que o tratamento com medicações segue por mais um mês, além dos incontáveis exames. “Tenho exames para fazer em um, três e seis meses. A tortura não vai acabar tão cedo”, declara.

Investigações

A estudante relata que mandou e-mail para uma coordenadora da UFGD e recebeu assistência da docente. “Ela foi até o hospital. Ela pediu por uma advogada. Elas me acompanharam até a Delegacia da Mulher”, explica. A jovem conta, ainda, que registrou boletim de ocorrência com os mesmos policiais que a atenderam na noite do crime.

Ao Dourados News, o delegado titular da Delegacia Regional de Dourados, Adilson Sitiguivitis Lima explica que o caso é apurado pela Delegacia de Atendimento à Mulher (DAM) e as informações são tratadas internamente por conta da sensibilidade do caso. O caso segue em investigação e a Polícia Civil procura imagens de câmeras de segurança próximas ao local para identificar o autor. 

Repúdio - O Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFDG manifestou repúdio pelo caso. “A cultura do estupro fez mais uma vítima. É cultura, porque, no sistema em que vivemos, essa violência é naturalizada e cotidiana. É cultura, porque acontece no corredor da escola, no campus da universidade, no leito do hospital, na rua ou dentro da casa da vítima”, diz trecho da nota. 

O Diário Digital procurou a UFGD para apurar o caso, porém, até a publicação desta reportagem, não obteve retorno.

Confira na íntegra a nota de repúdio do DCE da UFGD:

Estudante relata estupro próximo a UFGD
(Foto: Reprodução/Instagram)

A CULTURA DO ESTUPRO FEZ MAIS UMA VÍTIMA

O DCE-UFGD se manifesta por meio desta nota sobre o caso de estupro sofrido por uma estudante da UFGD nas proximidades da FADIRI.

A cultura do estupro fez mais uma vítima. É cultura, porque, no sistema em que vivemos, essa violência é naturalizada e cotidiana. É cultura, porque acontece no corredor da escola, no campus da universidade, no leito do hospital, na rua ou dentro da casa da vítima. O estupro é uma cultura, porque garantir que as agressões contra as mulheres e suas causas estruturais se mantenham veladas e normalizadas é o mecanismo necessário para que o sistema continue reproduzindo a violência. O estupro é uma política. No capitalismo, que é patriarcal e exploratório, as opressões não são um raio em um céu sem nuvens. Pelo contrário. A violência é consequência inevitável do modo de organização do sistema.

O estupro é, portanto, uma violência estrutural. É um crime no qual o Estado questiona e culpa a vítima. Essa questão estrutural se manifesta também em nossa universidade, que sequer possui meios próprios para denúncias de casos de abuso sexual.

A violência contra as mulheres está em todos os lugares. O primeiro ato de agressão são os olhares que causam medo. Desses olhares se seguem o assédio, a perseguição, o estupro ou o feminicídio. Não é suficiente apenas dizer "basta de violência contra a mulher". É necessário lutar por mudanças reais que possibilitem o fim dessa opressão. Em tempos de defesa de uma democracia em abstrato é preciso questionar: que tipo de democracia é essa na qual as mulheres são alvo constante de violência? Esse Estado de Direito não é governado pela e nem para a classe trabalhadora e seus grupos marginalizados, ele é uma ferramenta da burguesia para manter a exploração e as opressões contra nossa classe.

Nossa gestão do DCE já vivenciou situações em que denunciar a origem estrutural das violências foi motivo de críticas. É claro, vivemos em um estado no qual o agronegócio pratica um genocídio contra povos indígenas na disputa por terras e, nesse contexto, não é interessante para a burguesia e latifundiários que toda violência sistêmica comece a ser amplamente apontada. Por isso a ideologia da cultura do estupro e naturalização das violências é tão necessária: ela gera as possibilidades para que a violência aconteça, seja normalizada e ignorada para que continue existindo. Reproduzir essa ideologia foi o que aconteceu com os homens e as mulheres que criticaram nossa nota sobre Tatiane Vera. Mas o tempo é implacável em mostrar a verdade. Aqueles que querem calar a tudo e a todos são coniventes com a reprodução da violência e da política de extermínio dos grupos explorados e oprimidos. Essas pessoas são as mesmas que duvidam de mulheres que denunciam abusos, que as expõem à violência ou, até mesmo, são aqueles que praticam a agressão. E nós não nos calaremos. Estamos aqui para dizer aquilo que não querem que seja dito.

Casos de violência como esses não devem nos amortecer, mas sim nos radicalizar. Não existem palavras de conforto mediante tanta dor. O estupro nunca foi e nunca será algo natural e nem aceitável. Então, não toleraremos comentários que normalizem essa violência. Que continuemos lutando, incessantemente, por nossas vidas.

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